A Segunda Cinelândia Carioca: Memórias dos Cinemas da Praça Saens Peña

A Segunda Cinelândia Carioca: Memórias dos Cinemas da Praça Saens Peña

Publicado em 24/08/2026 | 338 leituras

Muito antes do shopping e das lojas de departamento, a Praça Saens Peña era o point dos amantes da sétima arte.

Quem caminha hoje pela movimentada Praça Saens Peña, na Tijuca, dificilmente imagina que aquele mesmo lugar já foi um dos maiores polos de cinema do Brasil. Entre as décadas de 1940 e 1970, a região foi apelidada carinhosamente de "Segunda Cinelândia Carioca" — uma referência à famosa Cinelândia do Centro da cidade — e chegou a abrigar mais de treze cinemas de rua funcionando simultaneamente, todos muito próximos uns dos outros .

Essa história começou bem antes, em 1907, com o Pathé Cinematográfico, o primeiro cinema da Tijuca, instalado na Rua Haddock Lobo. Foi ali, ainda antes da inauguração oficial da praça em 1911, que as primeiras sementes do que viria a ser um grande polo cultural foram plantadas .

Os Palácios do Cinema na Praça
Os cinemas da Praça Saens Peña não eram simples salas escuras. Eram verdadeiros movie palaces, projetados para oferecer luxo e conforto ao grande público. Cadeiras acolchoadas, ar condicionado (uma novidade na época), telas enormes e fachadas imponentes faziam parte da experiência .

Alguns deles se tornaram lendários:

Cine-Teatro Olinda
Inaugurado em 1940, foi o maior cinema da cidade na época, com capacidade para impressionantes 3,5 mil lugares . Mais do que um cinema, era um espaço de eventos que chegou a apresentar shows com cantores do rádio antes das sessões. Sua demolição, em 1972, deu lugar ao Shopping 45, marcando o início da transformação da região .

Cine Metro-Tijuca
Inaugurado em 1941, era considerado o mais elegante da praça e o único a possuir ar condicionado na época . Lá, a MGM realizava exibições de operetas às tardes de quinta-feira, e aos domingos de manhã, era a vez do festival Tom e Jerry encantar as crianças. Hoje, o local abriga uma loja .

Cinema Carioca
Inaugurado em 1941, o Cinema Carioca era um espetáculo à parte. Com projeto em estilo art déco e mais de mil lugares, seu interior era revestido de mármore de Carrara . O prédio foi tombado em 1988, mas hoje funciona como uma Igreja Universal — as letras com o nome "CARIOCA" e os elementos de neon que adornavam a fachada já não estão mais lá .

Cinema Eskye / Cine Tijuca
Na Rua Conde de Bonfim, funcionou o Cinema Eskye a partir de 1956, com 1.702 lugares . Sua escadaria foi palco de momentos históricos, como o desfile de moda e até o cenário do tiro dado em Carlos Marighella por um agente do DOPS, em 1964 . Anos depois, virou o Cine Tijuca e, em 1982, foi dividido em duas salas: Tijuca 1 e Tijuca 2 . O espaço hoje abriga uma loja da Casa & Video .

Cine Tijuca-Palace
Inaugurado em 1967 com a proposta de exibir filmes de arte, acabou se tornando um cinema comercial e fechou em 1982 . O que impressiona é que, mesmo fechado, as salas se mantêm praticamente intactas até hoje, em uma galeria comercial na Rua Conde de Bonfim — um verdadeiro "fantasma" cinematográfico .

Outros Nomes que Fizeram História
A lista de cinemas que marcaram a região é longa: o Cine-Teatro América (que funcionou até 1997 e hoje é uma drogaria), o Cine Madri, na Haddock Lobo, ponto de encontro de músicos como Roberto Carlos e Tim Maia; e muitos outros como o Cine Palácio Tijuca, o Cine Comodoro e o Art-Palácio Tijuca .

Mais que Cinema: Um Espaço de Encontros
Ir ao cinema na Praça Saens Peña era muito mais do que assistir a um filme. Era um ritual social. Como descreve a pesquisadora Talitha Ferraz, autora do livro A segunda Cinelândia Carioca, "o cinema era parte da vida dessas pessoas, dos encontros, dos namoros, dos flertes e até das traições. Era um espaço de lazer para a família" .

Havia uma hierarquia informal entre as salas: os "poeiras", cinemas menores sem grande luxo que exibiam filmes de nicho (como faroestes), e os grandes movie palaces, que traziam lançamentos de Hollywood e do cinema nacional . Essa diversidade atraía públicos variados e criava uma efervescência cultural única no bairro.

O Declínio e a Memória que Persiste
O que aconteceu com esse polo cinematográfico? A resposta é uma combinação de fatores que transformaram a cidade a partir dos anos 1980 :

A popularização do automóvel, que permitiu que as pessoas circulassem por outros bairros;

O crescimento da violência urbana;

A chegada dos shoppings centers, que ofereciam cinemas em um ambiente seguro e com múltiplas opções de lazer.

O último cinema de rua da Tijuca fechou as portas em 1999, e hoje o único cinema em atividade no bairro é o Kinoplex, dentro do Shopping Tijuca .

Apesar disso, a memória da "Segunda Cinelândia" continua viva na nostalgia dos tijucanos mais antigos, que ainda se lembram das filas nas bilheterias, do cheiro de pipoca e do brilho das marquises iluminando a praça. Os prédios — muitos deles tombados — ainda estão ali, mas seus usos foram completamente transformados: igrejas, drogarias e lojas de departamento ocupam os espaços que um dia foram templos do cinema .

Conclusão
A história dos cinemas da Praça Saens Peña é uma crônica da própria transformação do Rio de Janeiro. É a história de um bairro que respirou cultura, que viveu o cinema como uma experiência coletiva e vibrante, e que viu esse modo de vida ceder lugar a novos tempos. Ainda que as telas tenham se apagado, a memória do brilho que um dia iluminou a Tijuca continua acesa na lembrança de quem viveu aquela época dourada.

E você, tem alguma lembrança de ter ido ao cinema na Praça Saens Peña? Deixe seu comentário e compartilhe essa história com a gente!

Conde de Bonfim - Tijuca, Rio de Janeiro - RJ


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