No ponto mais alto da Rua Conde de Bonfim, onde o asfalto encontra a serra e os ônibus fazem ponto final, existe um largo que guarda a memória energética de um Rio de Janeiro antigo. O Largo da Usina é muito mais do que um terminal rodoviário: é o testemunho vivo da era dos bondes, o berço de um nome que batiza todo um sub-bairro e, até hoje, o principal portal de acesso entre a Tijuca e o Alto da Boa Vista.
A Origem do Nome: Onde a Energia Gerava Movimento
A história do Largo da Usina começa em 1898, quando foi criada a segunda linha férrea de bondes movida a eletricidade no Rio de Janeiro: a Estrada de Ferro da Tijuca . A primeira havia sido a linha Largo da Carioca - Largo do Machado, operada pela Botanical Garden Rail Road Company .
Para que os bondes pudessem enfrentar a íngreme subida até a Praça Afonso Vizeu, no Alto da Boa Vista, foi construída no local uma usina termelétrica . Esta usina gerava a energia necessária para que os veículos percorressem o trajeto de aproximadamente 5 quilômetros pela Estrada Velha da Tijuca . Dessa usina, instalada ao final da Rua Conde de Bonfim, nasceu o nome "Usina" para designar aquela parte elevada do bairro .
Antes da eletricidade, os bondes eram puxados por tração animal. Contam as crônicas que o local conhecido como "Muda" , um pouco abaixo da Usina, era justamente onde se fazia a troca dos burros cansados para enfrentar a longa subida que viria mais à frente . Primeiro vinha a Muda dos burros; depois, com a eletrificação, surgiu a Usina da energia.
O Largo Como Centro Nevrálgico
O Largo da Usina sempre foi um ponto de convergência. Na época dos bondes, era ali que eles faziam a junção antes de seguir para o Alto da Boa Vista. Uma foto aérea do final dos anos 1960 mostra a configuração do largo, com o final da Rua Conde de Bonfim e o início da Avenida Edison Passos, que sobe em direção à serra .
Com o fim dos bondes em 1967 — as linhas foram desativadas devido às fortes tempestades que assolaram a cidade em 1966 e 1967 —, os ônibus assumiram o protagonismo . O largo tornou-se o ponto terminal natural para dezenas de linhas que ligam a Zona Norte a diversas partes da cidade.
Atualmente, o Largo da Usina abriga o Terminal Rodoviário Professor Carlos Manes Bandeira, inaugurado em 1994 após anos de reivindicação da comunidade . Antes da construção do terminal, o local era uma confusão: quatro linhas de ônibus tomavam conta do largo sem qualquer organização, acidentes eram frequentes e motoristas improvisavam refeições nas calçadas .
Hoje, o terminal recebe linhas importantes como:
220 - Usina x Candelária (via Saens Peña/Central)
229 - Usina x Castelo/Carioca
415 - Usina x Leblon
426 - Usina x Jardim de Alah
603 - Saens Peña x Usina (integrada ao metrô)
A Antiga Usina: Da Energia aos Cigarros e ao Abandono
O prédio da antiga usina termelétrica teve uma trajetória curiosa ao longo do século XX. Após o fim da necessidade de gerar energia para os bondes, o local foi ocupado pela Fábrica de Cigarros Souza Cruz (antiga Fábrica de Cigarros Veado), que ali permaneceu até meados dos anos 1990 .
Em 1997, o edifício foi transformado em uma unidade do hipermercado Carrefour, com aproximadamente 3 mil metros quadrados . No entanto, o empreendimento durou pouco: foi fechado em fevereiro de 2004 .
Desde então, a construção permanece abandonada. A proximidade com a Comunidade do Borel, somada a questões judiciais, afastou novos investidores, deixando o antigo casarão industrial como uma cicatriz na paisagem — um símbolo do potencial econômico que a região poderia ter .
Marcos Históricos no Entorno
O Largo da Usina não vive apenas de seu passado industrial. Seu entorno é rico em construções históricas e instituições tradicionais:
Paróquia São Camilo de Lellis
Inaugurada em 1960, a igreja teve suas obras iniciadas no final dos anos 1950 e rapidamente se tornou um marco da paisagem local. O santuário, que depois foi elevado à categoria de paróquia, está localizado na Avenida Edison Passos, 45, bem na entrada do caminho para o Alto da Boa Vista .
Colégio Marista São José
Fundado em 1902, o belo prédio do colégio foi concluído em 1932 e é uma das instituições de ensino mais respeitadas do país .
Hospital da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência
Construído originalmente no Largo da Carioca em 1763, o hospital foi transferido para a Tijuca em 1933, após a demolição de sua sede original na gestão do Prefeito Pereira Passos. O prédio, localizado na Rua Conde de Bonfim, 1033, é um belo exemplar da arquitetura da época .
Montanha Clube
Tradicional clube social e esportivo da região, point de encontro de gerações de tijucanos .
Um Sub-Bairro Sem Registro Oficial
Curiosamente, a Usina não é um bairro oficial da cidade do Rio de Janeiro. Seu território pertence oficialmente ao Alto da Boa Vista, mas é popularmente conhecido como parte integrante da Grande Tijuca . Assim como a Muda, você não encontrará a Usina nos mapas da prefeitura, mas certamente verá seu nome nos letreiros dos ônibus e no vocabulário dos cariocas .
O Largo na Cultura Popular
A região ganhou ainda mais notoriedade quando parte da telenovela "A Força do Querer" , de Gloria Perez, produzida e exibida pela Rede Globo em 2017, foi ambientada no bairro . As cenas mostravam a rotina de personagens que circulavam pela Usina, levando o nome do lugar para todo o país.
Entre a Serra e a Cidade
O Largo da Usina ocupa uma posição geográfica privilegiada, nos pés da Serra da Carioca, próximo às comunidades do Borel, Formiga e Casa Branca . Dali, partem as estradas que levam ao Parque Nacional da Tijuca, refúgio de natureza e lazer para milhares de cariocas.
Nas proximidades, funcionam duas feiras livres: uma às terças e outra às sextas, na Avenida Maracanã com a Rua Garibaldi, mantendo viva a tradição do comércio de rua .
Conclusão
O Largo da Usina é um desses lugares especiais onde o passado e o presente se encontram. Das máquinas a vapor que geravam energia para os bondes aos ônibus que hoje transportam milhares de passageiros; da fábrica de cigarros que empregou gerações ao hipermercado que fechou as portas; do movimento constante de quem chega ou parte para o Alto da Boa Vista à tranquilidade de quem aprecia a vista da serra — o largo segue vivo, pulsante, aguardando que um dia o antigo casarão da usina volte a ter a importância que já teve. Enquanto isso, seu nome permanece, lembrando a todos que, para subir a serra, é preciso energia. E ali, na Usina, essa história começou.