Em meio à agitação típica da Zona Norte do Rio de Janeiro, existe um lugar onde o tempo parece andar mais devagar. Localizada no cruzamento da Avenida Maracanã com a Rua Doutor Otávio Kelly, a Praça Comandante Xavier de Brito é mais conhecida pelo apelido afetuoso que ganhou dos cariocas: Praça dos Cavalinhos . Mais do que uma simples área de lazer, este é um verdadeiro oásis de tranquilidade, um pedaço do interior encravado na cidade, que há décadas faz a alegria de crianças, adultos e da terceira idade.
A História por Trás do Nome
Apesar do apelido popular, a praça carrega um nome oficial de grande significado histórico. O logradouro existe desde 1928, quando foi ajardinado, e recebeu o nome de Praça Comandante Xavier de Brito em homenagem ao coronel João Maria Xavier de Brito Júnior .
O coronel foi uma figura de destaque na história da República, atuando como diretor da Fábrica de Cartuchos do Exército e comandante dos revoltosos da Escola Militar do Realengo durante a Revolta do Forte de Copacabana, em 5 de julho de 1922 . Para marcar essa memória, a praça abriga um busto em sua homenagem, com uma placa que diz: "Ao seu Cmt. Cel. Xavier de Brito / Os cadetes do Realengo de 1922" .
Um Chafariz com Alma Francesa
O grande monumento que domina o centro da praça é um portentoso chafariz de bronze, considerado o segundo maior da cidade . Sua origem é cercada por uma história curiosa e um tanto lúdica. Reza a lenda que a peça foi fundida na França, possivelmente nas renomadas Fonderies du Val d'Osne, e teria como destino original alguma praça europeia. No entanto, por razões não totalmente esclarecidas, acabou vindo parar no Brasil .
O chafariz foi instalado na Praça Xavier de Brito por volta dos anos 1960 — mais precisamente, inaugurado em 23 de agosto de 1963 pelo então governador Carlos Lacerda — e desde então é o principal ornamento do local . Feito inteiramente de bronze, é ricamente decorado com carrancas, anjinhos e golfinhos ornamentais, por onde passam os filetes e o jorro d'água, criando um espetáculo visual de ares românticos . O monumento foi tombado em 5 de outubro de 2000 pelo então prefeito Luiz Paulo Conde, garantindo sua preservação como patrimônio cultural da cidade .
O Encanto da "Praça dos Cavalinhos"
Se o chafariz é a alma francesa da praça, os cavalos e pôneis são, sem dúvida, seu coração pulsante. É aos sábados, domingos e feriados que a praça ganha sua verdadeira identidade e recebe o maior número de visitantes, especialmente famílias com crianças pequenas .
O chão de terra batida, incomum em uma metrópole, proporciona aos pequenos a rara experiência de estar em uma cidadezinha do interior . É sobre essa terra que eles correm, brincam e se sentam, alheios aos aparatos tecnológicos, entretidos com as atrações mais tradicionais. A principal delas, que dá nome à praça, é o passeio a cavalo e de charrete. Os potros, por vezes pôneis fofuchos, circulam no perímetro da praça carregando as crianças em seus dorsos, sob o olhar atento de seus donos, que utilizam a atividade como fonte de renda .
Ao final do passeio, os animais retornam às árvores onde são amarrados, matam a sede em baldes d'água e descansam, em uma cena que, embora simples, é carregada de um pitoresco charme interiorano .
Cultura e Lazer para Todas as Gerações
A Praça dos Cavalinhos não vive apenas de atrações equestres. Seu espaço é bem dividido e oferece opções de lazer para públicos de todas as idades, consolidando-se como um verdadeiro centro de convivência comunitária.
Teatro de Guignol: Uma das joias culturais da praça é o Teatro Municipal de Guignol Magda Modesto . Inaugurado em agosto de 2004, ele resgata uma tradição carioca do início do século XX, quando o prefeito Pereira Passos implantou teatrinhos de fantoches em várias praças da cidade como símbolo de civilidade. As apresentações de marionetes fazem sucesso não só entre as crianças, mas também entre os adultos, que resgatam a própria infância ao lado dos filhos .
Terceira Idade Ativa: Em um antigo coreto, hoje adaptado, a terceira idade encontra seu espaço. Mesas e cadeiras estão sempre ocupadas por senhores que se dedicam a jogos tradicionais como dominó, carteado, dama e xadrez, em um passatempo que foge à pressa do mundo moderno e reforça o caráter comunitário do local .
Parque Infantil e Esportes: Para os pequenos, além dos cavalos, há opções como pula-pula, minimotocicletas e balanços que compõem o parque dos bebês. O local também recebe apresentações de escolas de capoeira e música .
Feira de Produtos Orgânicos: Outro atrativo que ganhou espaço é a feira de produtos orgânicos, que se instala junto às bordas da Rua Oliveira da Silva, atraindo um público preocupado com alimentação saudável e criando um clima de novidade e efervescente comércio local .
Gastronomia e Vizinhos Ilustres
O entorno da praça é tão convidativo quanto seu interior. Quando a fome aperta, as opções são variadas e de qualidade. O tradicional restaurante português Rei do Bacalhau é um dos endereços mais famosos, e o Bar do Pavão tem fama de servir a melhor feijoada de sábado do bairro . Para quem busca um boteco mais simples e com jeitão lusitano, o Bar do Neca, espremido entre os dois, é a opção etílica mais prática da vizinhança, mantendo a mesma estrutura de décadas atrás .
A arquitetura do entorno também merece atenção. A Escola Municipal Soares Pereira, um belo exemplar do estilo neocolonial brasileiro da década de 1920, contrasta com o elegante Edifício Imola, um expoente da arquitetura residencial dos anos 1960 que, curiosamente, é um dos poucos prédios da região que não possui grades . Há ainda uma resistente casa amarela, um dos últimos imóveis unifamiliares da praça, que teima em não ceder à especulação imobiliária e à verticalização .
Completando o cenário de encontros, não é raro esbarrar por ali com uma figura folclórica da cidade: Renato Sorriso, o famoso gari da Comlurb e passista, que bate ponto na praça e, com sua simpatia característica, coroa o passeio de quem visita este garboso recanto da Zona Norte .
Conclusão
A Praça Xavier de Brito, a inesquecível Praça dos Cavalinhos, é um patrimônio afetivo da Tijuca e do Rio de Janeiro. Com seu chafariz francês, suas árvores centenárias, o chão de terra batida, o teatro de marionetes e o tradicional passeio a cavalo, ela oferece um raro equilíbrio entre história, cultura, lazer e natureza. Em um mundo cada vez mais acelerado, a praça mantém-se como um refúgio onde o tempo desacelera, as crianças brincam como antigamente e a comunidade se encontra — um pedacinho do interior que o Rio de Janeiro faz questão de preservar.